Mais Dora

Dora faz um mês de idade hoje. Apesar das reclamações de todos, não vou ficar colocando fotos dela assim, de qualquer jeito, até porque quem está de licença é a Ana. Eu estou trabalhando como nunca, com o peso de quem acabou de ter uma filha linda e saudável. Escrevo hoje por duas razões. A primeira é o próprio ‘mesniversário’ dela, e a outra é porque temos fotos que trazem alguma novidade.

A primeira foto diz respeito à situação internacional dela. Por conta disso tivemos que enfrentar dura burocracia, junto ao consulado geral do Brasil em Frankfurt, para registrá-la, conseguir-lhe um passaporte e uma autorização minha para ela viajar com a mãe. Vejam que coisa, meu primeiro passaporte veio aos 27 anos.

Graças à boa vontade dos funcionários do consulado, consegui entrar com o processo, que deve durar um mês. Mas isso não vem ao caso. Eu não mencionaria minha ida sem graça a Frankfurt não fosse por uma exigência do consulado. Uma foto biométrica! A burocracia às vezes precisa transitar pela tênue linha que divide a padronização, tão cara à própria burocracia, do ridículo promovido pelas exceções, que dá cor às nossas vidas.

Foto biométrica é aquela que deve constar no passaporte moderno, com um chip do sei lá o quê, que facilita o controle e aumenta a autoridade que as tão injustas polícias federais mundo afora exercem sobre os viajantes. Os viajantes sofrem, mas nem sempre foi assim. Charles Darwin, Marcopolo, Jacques Cousteau e tantos outros que o digam. Dora, pena, nasceu viajante num mundo onde isso é perto de um crime, além de ser banal, quase brega. Quantos milhões de pessoas tiram as mesmas fotos, do Cristo Redentor, da Torre Eiffel e acreditam serem estas relíquias únicas no mundo.

Mas voltando à foto, é exigência do consulado que a pessoa fotografada esteja de olhos abertos, uma cara neutra, boca fechada e encarando a lente da câmera. Imaginem pedir isso para um bebê de menos de um mês de idade? Foram quarenta minutos de esforços da mãe e da avó para conseguir que a Dora fizesse pose. Ficou uma gracinha.

Ela também já sorri, e consegui flagrá-la num desses momentos, raros, de felicidade. O resto é só chorar, dormir, chorar de novo, mamar, e chorar mais um pouquinho. Vamos ver se as cólicas passam em breve.

Teve também o dia da roupinha South Park, presente da Fafá, tão útil aqui na terra do gelo.

E também o dia da manta da mamma, em que a Dora revelou sua origem Lage Fazito.

A Aninha chega em BH no final de março, quando vocês poderão ver a Dora de perto. Até lá, vamos ver se sobra tempo para postar mais algumas fotos.

Habemus Nenem!

Dora, a Rainha do Frevo e do Maracatu chegou segunda-feira, dia 25 de janeiro. Nasceu fortíssima e saudável, com bons 3,7 quilos e 52 cm. Nasceu com um pé torto, o que obviamente não a impede de ser rainha do frevo e do maracatu, afinal de contas Garrincha também tinha a perna torta. E diz o médico que o pé vai consertar sozinho. Nasceu num dia atípico de inverno aqui na nossa região da Alemanha, em Düren, onde tem a maternidade mais equipada. Nevava muito e o papai coruja teve que ficar uma hora e meia no ponto de trem à noite, a dez graus negativos. É que na emoção do momento, ele se esqueceu de planejar a volta para casa, posto que não poderia dormir no hospital com as duas. E, como se sabe, na Alemanha quem não planeja toma ferro. Não há perdão.

Mãe e filha encontram-se saudáveis e fortes. Sintonizam-se dia a dia nos rituais de amamentação e tudo o que se segue a eles: acalmar, mamar, virar de lado, mamar de novo, arrotar, mamar de novo, arrotar de novo, sujar a fralda e trocar a fralda, acalmar de novo e dormir. Cena linda, cuja parte que me tem cabido, naturalmente como último coadjuvante, é a mais suja. Sou bom nisso, apesar do estômago fraco que vez em quando nos atrapalha. Também sou bom para acalmá-la. Converso bastante e tenho certeza que ela me escuta e entende. Duvida? Pedi para ela nascer um dia antes, falando na barriga da Ana. Pode conferir com ela. Deve ser coisa da mamãe, da época da escolinha Pés-no-Chão e algum aprendizado com o Arnaldão e o pessoal no subconsciente. Ela gosta de Nara Leão, do Vento de Maio.

Coincidências. Acordo no dia 26 e vou ler os e-mails com um pouco de complexo de culpa, já que dormira toda a noite. Diferente da mãe, que passara a mesma a aprender os rituais supracitados. Helder vez em quando me envia poemas, e o do dia 26 chamava-se “rebento”, e ele nem sabia da novidade. Abro meu livro de contos do Guy de Maupassant no trem a caminho da maternidade e: “Um Filho”. Conto excelente, mas horroroso para o momento, devia ter ficado somente no título.

Na primeira noite sem dormir, achei que morreria, afinal de contas já tentei viver sem dormir no passado, para viver um terço a mais a vida, e provei impossível a hipótese. Dormir é parte da vida. Mas as coisas vão se acertando. Agora ela me acompanha e fica ouvindo música enquanto eu trabalho, escrevo, cozinho, e a Ana descansa seu merecido descanso de heroína mãe recente. Acho que a Dora curte. Um filho revitaliza os nossos sonhos, que costumam esmorecer com o passar do tempo e com contato com a rudeza e as mentiras da realidade. Recomendo para quem quer, mas tem medo por conta dessas mentiras da realidade.

Aproveitando a poesia da Nara, que a Dora gosta, vamos nos encontrar nos ventos de maio próximo aí em Belzonte, se não houver empecilhos, mas que hoje são um pouquinho mais frequentes.

Seja bem-vinda, Dora.

Para ouvir alto!!!

Dia da Consciencia Negra – erros que não podem ser esquecidos

Strange Fruit (composta por Abel Meeropol, codinome Lewis Allan)

Southern trees bear strange fruit
Blood on the leaves
Blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees
Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
The scent of magnolia sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh
Here is a fruit for the crows to pluck
for the rain to gather
for the wind to suck
for the sun to rot
for the tree to drop
Here is a strange and bitter crop

Dora

De acordo com a médica, é menina! Concebida na Grécia, Dora, além de rainha do frevo e do maracatu, é um nome que remete a ‘presente’, em grego. Favor nao confundir com presente de grego :-)

Diálogo

Aqui resumo meu diálogo com funcionários do Instituto Chico Mendes, responsável pela administração das Unidades de Conservação no Brasil.

Basicamente contei minha experiência e formação acadêmica, meu vínculo no programa de doutorado da UCD e o tema da minha pesquisa, e disse que tinha recursos da universidade irlandesa para fazer um estágio no Brasil. Disse que tinha escolhido o instituto e que tinha expectativa de conhecer os métodos de gestão por ele aplicados nos parques e outras universidades de conservação no Brasil. Agradeci.

Algumas semanas depois, sem obter resposta, repeti o e-mail para um diretor do instituto. Respondeu-me prontamente, contando que tinha interesse no estágio, mas que seria necessário vencer alguns obstáculos institucionais. Enviou-me o e-mail com cópia para os departamentos responsáveis, cobrando ação.

Um mês depois, recebo a seguinte mensagem:

Boa tarde Mozar, O [...] encaminhou seu email para eu responder sua solicitação .
Nosso Convênio de estágio está vinculado apenas ao ensino médio e ensino superior (graduação), Com o CIEE, que é o estágio remunerado e o não remunerado encontra-se em andamento quanta a documentação que também atenderá apenas o estágio de ensino médio e superior graduação.

Insólito, não? E não falo da ortografia e nem da pontuação!

Ganhando tempo

Olha que legal essa nova ferramenta, para os que trabalham com dados de desenvolvimento. Contesto muito o conceito de desenvolvimento como uma coisa só, mas que vamos ganhar muito tempo com isso, ah vamos!

Karl Marx Matuto

Olha o que eu achei no Blog do Nassif

Karl Marx Matuto
Evaldo Araujo

Karl Marx, cabra andarilho,
Que usava chapéu de couro
Quando se encontrou com Louro
Pra fazer um trocadilho
Pensou em um estribilho
Em fazer algo legal
Teve idéia genial
Falou de Lucro e Salário
Defendeu o proletário
Escreveu O Capital

Se embrenhou na caatinga
Pra falar de Mais Valia
Entrou numa cantoria
E bebeu logo uma pinga
Um bebo com a catinga
De mortos queimados vivos
Bateu palmas, deu dois silvos
Deu um grito, lá do fundo
Esse diz pra todo mundo:
- Trabalhadores, uni-vos!.

Quando o forró começou
Quis fazer uma assembléia
Porém chegou uma véia
Que com ele se agarrou
Ele fogo não negou
Mostrou a foice e o martelo
A véia mostrou o pinguelo
E montou uma barricada
Chamou-o pr’uma trepada
Pra deixar de ser donzelo

Quis falar do Manifesto
E a véía manifestou-se
Disse: – Agora lascou-se
O homi só quer protesto
Parece até que eu não presto
Que não gostou do que eu fiz
Não quis sequer fazer bis
Ou por mais não ter vontade,
Ou por estar com saudade
Das Comuna de Paris

Depois de dançar com a véia
Se agarrou com os oito-baixo
Virou sanfoneiro macho
E começou fazer gréia
Tomou cana com geléia
Fez sextilha, fez quadrão
Depois deu um empurrão
Num soldado de polícia
E dedada com malícia
No rabo de um ladrão

Propôs a expropriação
Do estoque da bodega
Se juntou com uma cega
Pra comandar a ação
Findou a exploração
Em Tabira e São José
Baixou o preço do mé
Acabando com o lucro
Montou um cavalo xucro
E partiu pro cabaré

Pra não ficar isolado
Mandou chamar Friedrich
Engels, que chegou num pique
Todo metido a letrado
Vendo o lugar parado
Pediram uma aguardente
A uma moça contente
Cujo corpo se rebola
Pegaram logo a viola
E começaram o repente

Começaram pel’Origem
Da Família e do Estado
E do Bem que é Privado
Provocando a moça virgem,
Que findou tendo vertigem
Ouvindo o palavreado
Tão difícil e complicado
Que acabou vomitando
E o povo inteiro gritando:
“Deixa a moça, véi safado!”

Mas os dois continuaram
Cada qual cantando um tópico
Do Socialismo Utópico
E a todos espantaram
Depois foi que eles chegaram
Ao Comunismo Cientifico
Falaram do frigorífico
Que explora todo mundo
E deram pra Seu Raimundo
Mais um título honorífico

Pra ganhar dos comunistas
Pinto e Louro ali chegaram
E, ligeiro, ensinaram
Quem eram os repentistas
Calaram os socialistas
Até o raiar do dia
Com Coqueiro-da-Bahia,
Dez pés de queijo caído
Com repique e remoído
Esquentando a cantoria

Quando ouviram o Quadrão
Os barbudos foram embora
|Em menos de meia-hora,
Abandonaram o Sertão
Saíram num carreirão
Por serra, morro e montanha
Numa montaria estranha
Que os dois tinham roubado
E no tal jumento alado
Voaram pra Alemanha

Não se sabe se é verdade
Se é lorota ou mentira
Mas eu sei que em Tabira
Se diz com sinceridade
Que um dia a cidade
Recebeu um alemão
Que fez a revolução
No meio da cantoria
E que durante esse dia
Foi comunista o sertão

Ai ai ai… Grécia

Definitivamente o melhor lugar que conheci até agora na Europa. Talvez pela época: a primavera é a graça da Europa; ou pela companhia de amigos de Atenas, que souberam me tirar dos roteiros turísticos que, quem viaja sabe, não são para passar férias, mas para trabalhar: “Tenho que conhecer a Acrópolis, a ‘ilhas-gregas’, Creta…”

Eu turista não tenho-que nada. Conhecedor da história e filsosfia do lazer, sei que, como ensinam os gregos antigos, scholé (lazer) é se permitir fazer o que quiser. Imagina se a ‘escola’ tivesse guardado os valores de sua origem etimológica… O termo latino para lazer é licere, que tem suas origens na escola do Aristóteles, Liceu. Ao ponto que o termo latino para trabalho é tripalium, cuja origem remonta a um instrumento de tortura. O que diferencia trabalho de lazer, pois, é que um é ruim o outro é bom. Eu turista gosto do bom.

Em Paris não conheci a Torre Eiffel e meu único arrependimento foi ter ido a Versailles. Entretanto em Atenas quis conhecer Acrópolis. Fui de metrô, talvez a melhor coisa que as Olimpíadas de Atenas deixaram de herança. Fiquei assustado já na estação da Acrópolis, que tornou-se um verdadeiro museu de tantas coisas que acharam por lá durante as escavações do metrô.

A foto abaixo é da Academia, lugar que deveria fazer qualquer pesquisador chorar. É onde tudo começou. Fica em frente à Ágora. A única depressão é saber que a Academia foi reformada com recursos da Fundação Rockfeller, família que na democracia de Péricles teria certamente sido condenada ao ostracismo.

Fomos também à Ilha de Andros, a primeira das Cíclades. Apesar do tempo instável, recomendo a visita na primavera, quando conseguimos evitar as hordas de turistas que invadem, destroem e dominam as ilhas. Difícil é convencer os locais, marcados pela experiência, de que somos turistas inofensivos. Soltar duas ou três palavras na língua local, diferentemente de outros lugares, ajuda, já que saber duas ou três palavras em grego moderno demanda algumas horas de estudo e treinamento, e de preferência com a supervisão de alguém de lá. Evitem dizer ‘malaco’ ou ‘malacas’, palavras que brasileiros normalmente guardam, que pega mal pácas. Como pode-se perceber na foto, praia só mesmo nos trópicos.

Fica da Grécia a comida maravilhosa: morangos, azeitonas, tomates doces, cordeiro, frutos do mar… ficam também as riquezas arqueológicas, um povo bacana, apesar do mau humor, e uma puta semelhança com o Brasil, que toda a hora pensávamos em tomar a direita para um filé à francesa no Lucas, mas éramos surpreendidos por alfas, betas e gamas. Caíamos na real, é apenas o bairro anarquista de Exarhia.

O Sul da Irlanda

Acabei de retornar de uma viagem ao sul da Irlanda. A Judith, minha colega de escritório e bióloga marinha, estava precisando de ajuda para a sua pesquisa. Coloquei-me como voluntário para catar ostras nas costas de Kerry e Cork.

Os lugares são famosos destinos turísticos aqui da Irlanda, principalmente no verão. Mas como não faz sol nunca, achei um pouco complexo me divertir na praia sem sol. Como vocês podem confirmar na foto abaixo, praia é só no Brasil.

Não é muito inteligente para um brasileiro procurar praia na Irlanda, mas sim as paisagens da terra. A região é famosa pelas montanhas arredondadas e polidas pela última glaciação, que pôs dezenas de quilômetros de gelo sobre a terra. Conjugado à notória cor verde das paisagens Irlandesas e às construções celtas, esse estranho relevo passa a combinar com a escuridão do tempo, a neblina e a chuva, gerando paisagens mágico-mediavais, que maravilham quaisquer olhos que se põem a observá-las.

Fomos almoçar em Baltimore, muito conhecida pelos surfistas. Outra característica dos Irlandeses é a falta de jeito na cozinha. Colocar uma lagosta grande na mão deles é como colocar um microfone na boca do Pelé. Quanto ao prato, cod fish grelhado coberto por uma lasca de manteiga e acompanhado por batatas-fritas. Para quem não sabe, cod fish é o bacalhau antes de salgado e seco. Entre uma Guinness e uma Smithwicks, fiquei com a Staut, que tem mais sabor. E pedi sal e pimenta para o peixe, porque salgado mesmo, só o preço.

Depois fomos a um Irish Irish Pub cheio de bêbados chatos, mulheres masculinas e dubladores de música antiga americana. A Irlanda é um país para se observar. Qualquer interação com a paisagem é ruim. Talvez daí a enorme e maravilhosa produção literária.

A Vida que se Repete

Do amor, o enjôo
Deste, o contorno
Que gera a vida

Crescer, crescer!

Encontrar novamente o amor,
o enjôo e o contorno
É a vida que se segue!